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23 de maio de 2010

O corvo na Biblia e em Outros Textos Mitológicos.

O corvo sagrado.

Em diversas regiões, o corvo é considerado um profeta e um augúrio negativo. Os árabes chamam-no de Abu Zajir, ou seja, “Pai das Profecias.” Na Irlanda antiga era domesticado para uso em práticas divinatórias – o termo “Sabedoria do Corvo” era usado para descrever o dom humano da Previsão. Corvos que abandonavam seus ninhos eram vistos como péssimos presságios e a superstição popular afirma que se os corvos abandonarem a Torre de Londres um dia, a monarquia chegará ao seu fim. Em muitas regiões do Mundo Antigo, ver um corvo voando para a direita era um sinal positivo, enquanto que se visto voando para a esquerda, era interpretado como mau sinal.

Por se alimentarem de carniça, os corvos eram vistos como mensageiros da morte, de doenças e de batalhas. Acreditava-se que essas aves ávidas por carne podiam sentir o aroma da morte sobre uma pessoa antes mesmo que ela morresse – até mesmo através das paredes de uma casa. Em pinturas, o corvo pode ser visto voando sobre campos de batalha, ansioso por banquetear-se nos mortos. Após a batalha do Armagedon, corvos descerão sobre as terras dos perversos. [Isa 34:11]

Acreditava-se que os corvos tinham um apreço especial pela carne dos criminosos enforcados e que gostavam de arrancar os olhos dos pecadores. [Prov 30:17] Os cristãos criam que eles levavam consigo as almas dos malditos e associaram esa ave com a Queda do Homem e com Satã, que cega os pecadores, inibe seu senso moral e banqueteia em sua corrupção.

Os corvos simbolizavam o pecado, especialmente os pecados da gula, do roubo e dos falsos ensinamentos. Eram apelidados de “aves surrupiadoras” e as crianças islandesas aprendiam que beber com canudos feitos de penas de corvo faria com que se tornassem ladrões. Acreditava-se que padres pervertidos se transformavam em corvos ao morrer. Para os cristãos europeus, o corvo é a antítese da inocente pomba branca. Contudo, em algumas tradições africanas e nativas americanas, o corvo é um guia benevolente cuja visão aguçada lhe permite enviar alertas aos viventes e que também orienta os mortos em sua jornada final.


 " sagrado animal de minha alma"
" Belenos morrighan"


 
 A ambigüidade da igreja cristã diante da figura do corvo é bastante conhecida. Acima à esquerda, Santo Expedito pisoteia a criatura divina só porque seu canto se assemelha à palavra latina para amanhã – uma suposta referência ao fato de que o corvo tentaria procrastinar a conversão do legionário romano Expedito. Já na figura da direita vemos outro santo, desta vez São Bento, que é salvo por um corvo...

O grito do corvo, "Cras! Cras!" foi interpretado pelos falantes do latim como significando “Amanhã! Amanhã!”. Tornou-se, portanto, um símbolo do pecador tolo que procrastina a conversão. Outros contudo, viam nesse mesmo canto a esperança de um futuro melhor. Para os esquimós, o canto do corvo soa como "Kak, kak, kak!" que significa “um cobertor de pele de rena”. De acordo com suas lendas, os gritos do corvo alertaram as pessoas para que não se esquecessem de seus cobertores quando deixavam suas casas.
Antes de Noé enviar a pomba a partir de sua Arca, ele enviou um corvo branco para testar as águas. Ao invés de retornar à Arca, esta ave “prosseguiu daqui para ali até que as águas secassem [Gen 8:7]. De acordo com Matthew Henry, a atitude desse corvo era como o “coração carnal” que, ao invés de buscar repouso e refúgio no Salvador, “pousa sobre o mundo e se alimenta da carniça que nele encontra”. Lendas judaicas dizem que o corvo de Noé foi punido por não voltar à Arca ao ser tingido de negro e condenado a comer carniça.


Os gregos acreditavam que Apolo tornara o corvo negro quando a ave informou-o sobre a infidelidade de sua amante, Coronis. Este episódio deu ao corvo a reputação de espião e divulgador de segredos. No Noroeste do Pacífico, as penas de corvos foram escurecidas quando seu cunhado passou-o através do fogo para puni-lo por seus truques. De acordo com as lendas ucranianas, os corvos antes possuíam belas penas multi-coloridas e uma voz agradável mas, após a Queda, começaram a comer carniça. Este hábito destruiu suas vozes e escureceu sua plumagem. Sua beleza anterior reaparecerá quando o Paraíso for restaurado.




 Na mitologia nórdica, o onisciente deus Odin (Wotan) possui um par de corvos chamados Hugin (Pensamento) e Munin (Memória) que vivem sobre seus ombros ou em seu trono. Todas as manhãs eles voam ao redor da Terra observando tudo e questionando a todos, até mesmo os mortos. À noite, eles retornam a seu mestre e sussurram-lhe tudo o que viram e ouviram. Por vezes, o próprio Odin assume a forma de um corvo.
Os corvos são tidos ao redor do globo como metamorfos e humanos costumam ser transformados em corvos por seus inimigos. São profetas, lançadores de sortilégios e mensageiros dos deuses. Deuses e deusas da guerra e do trovão como a celta Badb possuem corvos como seus atributos. São emblemas dos dinamarqueses e dos vikings.


A despeito de sua aparência obscura, o corvo costuma ser um símbolo solar. Na Grécia, era sagrado a Apolo, deus da luz. Na China, um corvo de três pernas vive no sol. Suas pernas simbolizam a aurora, o meio-dia e o crepúsculo. Antes existiam dez corvos solares, mas eles emitiam uma luz e um calor tão intensos que um arqueiro teve de abater nove deles para preservar a vida na terra. Um corvo vermelho é o emblema da Dinastia Chow na China.


Entre as tribos de nativos norte-americanos da Costa do Pacífico, Corvo é um herói, um mensageiro, criador do mundo, ladrão e pregador de peças. Ele ensinou aos primeiros humanos a sobreviverem e as artes de produzir roupas, canoas e moradias. Sua posição no folclore nativo americano é semelhante à do astuto coiote. Alguns dizem que o corvo nasceu da escuridão primordial; outros que ele nasceu do caixão de sua mãe morta, onde se alimentou de suas entranhas. Ele é um criador providente que gerou a luz do dia, a vegetação, os animais e os ciclos do mundo para o bem da humanidade. Ele levou os animais aos casais sobre uma balsa, assim como o Noé hebraico, para salvá-los de uma grande inundação. Depois de todas as benesses que ele trouxe à Humanidade, Corvo desejou desposar uma humana, mas os homens se recusaram a permitir tal união. Como vingança, Corvo criou os mosquitos a partir de folhas amassadas para atormentá-los para sempre. Quando Corvo trouxe luz à humanidade, os humanos se assustaram tanto que se espalharam por todos os cantos do mundo. 
 
O corvo é o símbolo da solidão e um atributo de diversos santos que são alimentados por corvos em meio à natureza, entre eles Santo Antonio Abade, São Paulo o Heremita e São Bento. Apesar de o corvo ser considerado ímpio, Deus enviou corvos para alimentar Elias no regato durante uma seca prolongada. [1 Ki 17:6; Lev 11:15; Deu 14:14] Há muito tempo o corvo é um símbolo da providência divina. [Psa 147:9; Job 38:41] Muitos se recordam de quando Jesus disse para olhar para a andorinha e os lírios do campo, mas poucos parecem se lembrar das palavras “Olhai para os corvos, pois eles não semeiam nem colhem, e portanto não têm nem depósitos nem celeiros; e Deus os alimenta” [Lk 12:24] No Cântico de Salomão, as madeixas da Amada são “negras como o corvo” [Song 5:11]

O corvo simboliza a gratidão e o afeto filiais, a sabedoria, a esperança, a longevidade, a morte e a fertilidade. Na alquimia, ele representa a transformação e a alma evoluída que morre para este mundo. É um símbolo ainda usado com freqüência na magia moderna, na bruxaria e nos mistérios.
Corvos brancos ou albinos eram tão valorizados que os comerciantes de aves tentavam tingir as penas de filhotes mergulhando-os em diversas fórumlas letais. Entre os celtas, o corvo branco é o símbolo da heroína Branwen. Seu irmão Bran era retratado como um corvo. Na América do Norte, os Kiowas acreditam que o corvo branco se torna negro ao ingerir olhos de serpente. A deusa guerreira irlandesa Badb costuma assumir a forma de um corvo. Na mitologia clássica, o corvo é um atributo de Cronos ou Saturno e também de Atena, deusa da sabedoria, da vitória e das artes.


O corvo está associado ao amor materno e à fortaleza espiritual. Acreditava-se que as fadas se transformavam em corvos para criar problemas. Na heráldica, um corvo era usado para indicar uma pessoa escura, como um mouro ou sarraceno. No Egito, dois corvos serviam como emblema da monogamia.
Alguns cristãos vêem no corvo um emblema da Virgem Maria. As palavras “sou escura, mas formosa... pois o sol escureceu minha pele” são tidas como significando que a luz do amor de Deus brilhou com tamanha intensidade sobre ela que ela se queimou e foi purificada como que por um poderoso sol ou fogo. [Song 1:5-6]


Esses versos também fazem do corvo um símbolo da igreja que diz, “Não me olhes (com desprezo) por eu ser escura, pois foi o sol que me escureceu a pele. Os filhos de minha mãe ficaram bravos comigo; fizeram de mim a guardiã dos vinhedos, mas de meu próprio vinhedo eu não cuidei." [Song 1:6 parênteses acrescentados]. Esses versos são interpretados pela igreja como um apelo para que os potenciais convertidos não se sintam desencorajados diante de uma igreja pecadora, em sofrimento, ameaçada ou perseguida, mas ao invés disso que percebam que o fogo e a misericórdia do Senhor tornou sua escuridão mais bla do que a pureza virginal impli
cada na brancura de uma pomba.

O belo canto do melro torna-o um símbolo das tentações, especialmente de ordem sexual. O diabo certa feita assumiu a forma de um melro e voou sobre o rosto de São Bento, fazendo com que o Santo sentisse um desejo intenso por uma bela donzela que conhecera. Para salvar a si mesmo, São Bento arrancou suas vestes e lançou-se sobre um espinheiro. Os cristãos crêem que este doloroso ato livrou o santo das tentações carnais para o resto de sua vida.
Assim como o corvo, o melro é visto como um mau presságio. Contudo, avistar dois melros pousados juntos é um símbolo de paz e de bom augúrio.


O Corvo na Mitologia Celta

Poucos animais gozam de um papel tão importante nos mitos de um ovo quanto o Corvo entre os celtas. Presente nos nomes de deidades, animais guardiões de heróis ou espíritos do outro mundo, os corvos surgem nas lendas celtas da Irlanda, da Grã-Bretanha e do continente. Abaixo, alguns elementos interessantes sobre os corvos celtas.
Batalhas e Morte

A associação dos corvos com deidades guerreiras não é casual: grandes observadores da natureza, os celtas perceberam que essas aves sempre surgiam após as batalhas para se banquetearem nos cadáveres dos que tombaram em combate.

Na Gália, uma inscrição na moderna região de Haute Savoie traz o nome de uma deusa chamada Cathubodua: as partículas formadoras desse nome são facilmente identificadas: Cath é ‘batalha’, e bodua/Bodva é 'corvo', de onde seu nome significar, literalmente, Corvo de Batalha. Estas mesmas raízes são encontradas na Irlanda no nome da deusa Badbh Catha, uma figura sinistra que incita os guerreiros à batalha. Ao lado de Morríghan (também amplamente identificada com o Corvo) e Macha, Badbh forma a tríade de deusas guerreiras conhecidas como as Mórrígna.



Com o passar do tempo e após a chegada do cristianismo à Irlanda, muitos deuses celtas foram absorvidos pela nova religião ou reduzidos em estatura. Com Badbh ocorreu este último caso: a imagem da Badhbh chaointe, ou “corvo lamentador”, ecoa a outrora grandiosa deidade Badbh como anunciadora da morte. Essa fascinante personagem surge em alguns relatos irlandeses como uma mulher que, através de seu pranto, anuncia morte ou tragédia a uma família, de forma semelhante à mais conhecida bean-sídhe (banshee). A pequena vila de Lisbabe no Condado de Kerry deriva seu nome do gaélico para “fortaleza de Badbh” – uma referência às ruínas de uma fortaleza tida como morada da deusa Badbh.

Nas lendas irlandesas do Ciclo do Ulster, a deusa Morríghan (‘Grande Rainha’) surge diversas vezes na forma de corvo – a mais conhecida quando pousa no ombro do herói Cuchulainn mortalmente ferido para anunciar sua morte. Antes disso, Cuchulainn já havia tido outros contatos com corvos: num deles, ele destrói uma revoada de corvos malignos e banha suas mãos em seu sangue – vestígios de um antigo ritual?



O famoso “Elmo de Ciumesti” (Romênia) é um de muitos objetos de batalha de origem celta que retratam o Corvo. Podemos imaginar o efeito psicológico sobre os inimigos que a visão de um guerreiro celta furioso vindo em sua direção encimado por um elmo com um corvo metálico a bater as asas!


As deidades celtas costumam ser descritas como ambíguas e de caráter volátil – nada mais natural, numa cultura em que não existem os utópicos conceitos de “Bem Absoluto” ou seu contraponto negativo. Talvez isso explique o fato de que, numa batalha travada entre as legiões romanas comandadas por Valerius e guerreiros celtas um corvo ter atacado o comandante celta vazando-lhe os olhos e permitindo a vitória do general romano que, dali por diante, passou a ser conhecido como Valerius Corvus.

Já na lenda galesa “O Sonho de Rhonabwy”, os corvos surgem em batalha na forma de aves mágicas que, não importa quão gravemente feridas, voltam à vida e continuam atacando os guerreiros liderados por Arthur. Ainda na literatura galesa, no Segundo Ramo do Mabinogi a figura central é Bendigeidvran, ou “Brân o Abençoado” – o nome Brân significa literalmente ‘corvo’. O nome de sua irmã, Branwen, significa “Corvo Branco” ou “Corvo Sagrado”: com efeito, a lenda de Branwen faz dela um símbolo da Soberania que deve ser respeitada por quem a desposa – na lenda, o Rei da Irlanda – e que traz a ruína aos que a desrespeitam.

A sobrevivência do mito de Brân no inconsciente coletivo dos britânicos pode ser atestada no folclore associado à Torre de Londres: segundo a lenda, é ali que Brân instrui seus companheiros a enterrar sua cabeça, para que seu espírito continue a proteger a ilha britânica. Atualmente, é costume dizer que enquanto corvos habitarem a Torre de Londres, a Grã-Bretanha estará protegida de invasores.



Soberania e Riqueza

Assim como suas “irmãs” Badbh e Morríghan, a deusa Macha está intimamente associada à soberania da terra. Nada mais natural, numa sociedade guerreira como a celta irlandesa, que a Soberania – a personificação feminina do poder sobre o reino e os súditos – esteja diretamente associada à guerra e à vitória. Apesar de mais intimamente associada ao cavalo (representação simbólica da Soberania), Macha também assume, nalgumas lendas, a forma de Corvo.

As lendas de Macha, aliás, são indispensáveis para quem deseja compreender mais a fundo o real simbolismo do corvo nas lendas celtas. Originalmente uma mulher sedutora que traz prosperidade a seu amante, Macha rebela-se quando ele lhe falta com o respeito, abandonando-o com seus filhos e deixando-o à míngua. É, obviamente, uma deusa associada à fartura e à soberania da terra, que deve ser desposada, amada e honrada para que traga riqueza.

A correlação entre as três Mórrígna e a Soberania é um bom lembrete para aqueles que propõem leituras superficiais dos mitos celtas: para além da evidente correlação das Mórrigna com batalhas esconde-se seu dom mais importante, que é a fartura e a prosperidade do reino. Prova inequívoca disso é a existência de outro trio divino de deusas: Banba, Fótla e Ériu são três irmãs, todas as três encarnações da Soberania das terras irlandesas. Essas três irmãs são filhas de Ernmas, uma deusa da qual sabemos pouco. Não há de ser acaso que Ernmas é mãe, de acordo com as lendas, também de Badbh, Macha e Morríghan.



Para a Alma Celta, tudo no universo pode ser explicado em termos de micro- e macrocosmos, ou seja: o que vale para um indivíduo vale também para o todo, o que explica o pequeno também explica o grande. Se o Corvo está associado ao bem estar e à prosperidade do reino através das deusas da Soberania, o mesmo vale para o bem estar e a psosperidade do lar – o “pequeno reino” individual de cada um de nós. Na Gália, esses são os atributos da deusa Nantosuelta, cuja iconografia costuma apresentar a imagem de uma mulher (a própria deusa) dentro de uma casa e na companhia de um Corvo. A mesma associação do corvo com a fartura pode ser encontrada na estátua do deus anônimo de Moux, França, na qual essa deidade aparece acompanhada de um cão e traz em uma das mãos frutos – a riqueza da terra - e tem em cada ombro um Corvo. Autores modernos especulam que trata-se de um deus da colheita, caso em que os corvos podem se referir aos poderes ctônicos da fertilidade da terra – mensageiros do outro mundo que nos trazem a fartura.


Assim como diversas outras culturas contemporâneas, a sociedade celta da Idade do Ferro era caracterizada pela guerra. A própria estrutura social embasava-se na escolha do mais valoroso guerreiro como o líder da tribo e muitos dos combates intertribais tinham como função definir essa liderança e aumentar a riqueza da comunidade.

Nas lendas irlandesas, Lugh, o comandante dos deuses Tuatha de Danann na mítica Batalha de Moytura, assume sua posição de líder praticamente ‘usurpando’ a liderança. A ligação entre o Lugh irlandês e o Lugus gaulês é óbvia – e as habilidades de Lugh nos mitos irlandeses em usurpar a posição de comando pode explicar por que os romanos associaram o Lugus gaulês ao seu deus Mercúrio, ‘padroeiro’ do comércio e também do furto – em última análise, por mais que injusta e indesejável, apenas outra forma de comércio.

Os Corvos são conhecidos por seu fascínio por objetos brilhantes – vidro, metais, moedas – que ‘furtam’ para decorar seus ninhos. Sabendo que as moedas são a forma mais conhecida de comércio, não causa estranheza, então, que o corvo surja em moedas celtas que trazem em uma de suas faces a imagem de um enorme corvo montado a cavalo e com um pão ou bolo no bico.



Como tudo no universo celta, os simbolismos se entrelaçam e se complementam: o tamanho descomunal do corvo em relação ao cavalo indica tratar-se de um ser divino, que traz em seu bico a fartura – o pão ou bolo, fruto da terra. O cavalo e suas implicações militares e de Soberania retoma o tema de que é através da guerra que a sociedade celta se mantinha próspera. Lugh/Lugus, portanto, é um deus associado primordialmente à luz – como prova seu nome – e também à riqueza da terra, ao comando militar e ao comércio - seja este o comércio propriamente dito, pautado na troca de valores – moedas e bens – seja através da pilhagem, tão comum na sociedade celta da Antiguidade. Não por acaso, na lenda irlandesa “O Gavião de Achill”, Lugh é mencionado ao lado de corvos.
Outro Mundo

As escavações no sítio arqueológico de Jordan Hill, na Inglaterra, revelam que aquele local abrigara um santuário em tempos celto-romanos. Em seu interior, foram encontrados diversos ossos de corvos, sepultados cada um com uma moeda e separados por lajes. É curioso que este sítio date do século V, quando aquela região da Grã-Bretanha já se havia cristianizado – mais uma prova da sobrevivência dos costumes celtas. O simbolismo da moeda remete à imagem do “Balseiro”, aquele que, nas tradições pagãs de diversas culturas, é responsável pela travessia das almas para o Outro Mundo. Nada mais adequado do que ter essa travessia assistida por Corvo.

Até mesmo nas lendas cristãs da Irlanda o Corvo está ligado ao Outro Mundo – claro, de forma não tão positiva. A negativação da imagem do Corvo pelo cristianismo pode ser atestada através da lenda de Cornú, uma grande ave negra que vive no Purgatório de São Patrício. Segundo a lenda, Cornú era originalmente um demônio que foi enviado por Patrício ao Purgatório – um aspecto do Outro Mundo - na forma de um corvo.

Essa ligação entre Corvos e o Outro Mundo é fortalecida pelo fato de que ossos dessa ave são comumente encontrados junto aos aliecerces de estruturas comunais por toda a Gália e Grã-Bretanha. Talvez sejam ali depositados como forma de honrar os espíritos da terra – nas palavras da escritora Miranda J. Green, “os corvos podem estar associados a fossos por um simbolismo ctônico: os postes ritualísticos penetram no subsolo formando uma linha de comunicação entre os vivos e os mortos, a terra e os poderes do mundo inferior. Os corvos, com sua plumagem negra e seu hábito de se alimentar de corpos mortos, eram claramente percebidos como mensageiros do Outro Mundo”, o que torna óbvio outro tema comumente associado ao Corvo nas lendas celtas:

A Profecia

Por sua íntima ligação com o Outro Mundo – domínio dos espíritos e dos mortos – era de se esperar que os Corvos tivessem associações com as artes proféticas e oraculares.

Em ao menos dois eventos, a profecia trazida pelo Corvo fala de amores – ainda que trágicos: nas lendas irlandesas, a bela Deidre dos Infortúnios tem a visão do homem por quem se apaixonará ao observar um corvo que se alimenta do sangue que corre de um bezerro morto sobre a neve. A cena é por ela interpretada como um portento sobre seu amor ideal: “de cabelos negros como o corvo, com as faces alvas como a neve e os lábios vermelhos como o sangue”. Essa mesma tríade de cores (preto-branco-vermelho) surge também no mito galês de Peredur, que ao vê-las na imagem de um corvo a devorar um pato sobre a neve identifica as características de sua amada: cabelos negros, pele branca e bochechas avermelhadas.

Na Irlanda, o nobre guerreiro irlandês Lugh Lamfotha já mencionado acima é avisado por corvos de que seus inimigos estão se aproximando, o que lhe permite preparar-se melhor para resistir ao ataque dos temíveis Fomoire. Já na narrativa “A Destruição da Pousada de Da Derga”, Badbh aparece na forma de um corvo e também de uma anciã trajando negro que profetiza a morte do rei Conaire.

Ao relatar o ataque das legiões romanas ao centro druídico de Mona (Anglesey), na Grã-Bretanha, o escritor romano Tácito descreve druidesas trajando vestes negras e lançando maldições sobre os legionários romanos – as vestes negras podem ser uma alusão ao corvo como criatura ligada tanto à batalha quanto à magia.

A associação entre Corvo e profecia é duradoura: mesmo em tempos recentes, no século XVII, o folclore inglês mencionava um corvo profético que poderia ser visitado por seus ‘clientes’.

Noutro relato ancestral, é a deusa Morríghan – tão intimamente associada ao Corvo – que comunica ao Dagda, na véspera da grande batalha, o desfecho do conflito. E ao final da Grande Batalha, Morríghan volta a desfilar seus dons proféticos através de seus famosos versos:

“Após a vitória em batalha e depois que a matança foi limpa, a Morríghan, filha de Ernmas, passou a anunciar a batalha e a grande vitória ali ocorrida aos grandes montes reais da Irlanda e às hostes divinas, aos seus rios principais e aos estuários. E eis porque Badbh relata ainda grandes feitos. “Trazes notícias?”, todos lha perguntavam.

“Paz até o Paraíso,
Paraíso na Terra,
Terra sob o Paraíso,
Força em cada um
Uma taça bem cheia
Cheia de mel,
Abundância de hidromel.
Verão em inverno...
Paz até o Paraíso...”

Ela também profetizou sobre o fim do mundo, antevendo cada maldade que então ocorreria, e cada pestilência e cada vingança, e entoou o seguinte poema:

“Não verei um mundo
Que me agrade:
Verão sem frutos,
Gado sem leite,
Mulheres sem modéstia,
Homens sem valor.
Conquistas sem realeza...
Bosques sem mastros,
Mar sem vida…
Julgamentos falsos de homens velhos,
Precedentes falsos de juristas,
Cada homem um traidor.
Cada filho um saqueador,
O filho irá à cama de seu pai,
O pai irá à cama de seu filho.
Cada um o cunhado de seu irmão.
Ninguém procurará esposa fora de casa...
Um tempo maligno,
Filho a enganar o pai,
Filha a enganar…”

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